In Memoriam
O momento mais difícil das nossas vidas é quando perdemos alguém a quem amamos. Quando a morte chega na velhice e pela velhice resta a saudade e as lembranças de toda uma vida, mas quando ela vem de repente deixa um vazio. Esse vazio é o que me consome agora. Passamos quase 3 anos lutando, diariamente, contra a dor e o medo, a angústia e a insegurança de uma doença que nos dava poucas perspectivas mas que nos deixava ter esperança. Esperança que vingou, durante quase um ano. Logo em seguido vieram os percauços. Eu nunca me senti tão impotente. Quase perdi o meu irmão num acidente bobo de moto, um carro que triscou na traseira. Não levou o meu irmão, mas levou um amigo de infância. E, nossa! Que fortaleza mãe, que mulher forte a senhora foi por todos nós. Lembro que já sentia algumas dores, mas naquele mês resolveu adiar os cuidados com a prórpria saúde, cuidou dele, acalentou toda a família, mas já definhava. A mulher pequena, já magra, nenhuma grama acima do peso, perdeu dois quilos naquele fatídico mês de outubro. Em novembro chegou sua vez, fez tudo escondida, não me contou nada. “Não a preocupem, já tem a vida corrida demais.” era o que a senhora dizia. Quinze de novembro, foi o dia em que eu soube que a luta voltaria, cheia de incertezas, desde o início. É benigno? Maligno? Vamos abrir, vamos ver, tem que esperar umas boas semanas pelo resultado, ainda por cima. Mãezinha, quantos planos ainda tinha, ainda que definhasse a olhos vistos. Um resultado que só confirmaria o que a gente via dia a dia.
Primeiro não andava mais sem ajuda, depois nem com ajuda, sentar era tarefa difícil. Muda tudo, toda a alimentação. Não tem jeito, foi o que disseram quando o resultado, enfim, saiu. Na situação atual, nem sequer tratamento. É só esperar, a médica falou. Não completou pelo que eu devia esperar, aquela frase incompleta me aniquilou, mas eu voltei e te sorri. Era hora do banho, mãezinha, banho, comer e dormir. Na sua última semana mal me reconhecia, não conversava, só me pedia “canta pra eu dormir”. Não suportava mais as dores, os delírios. Eu gostaria de dizer que existe dignidade quando estamos a beira da morte, mas não existe, não existe nada. Eu já te pranteava mãezinha, tudo em mim sangrava, mas eu te sorria, era a única coisa que eu podia fazer por você, no fundo dos meus 22 anos, totalmente impotente. Nunca me senti tão nula em toda a minha vida. Primeiro dia de 2018, você não suportou mais, a dor era demais. Sua última semana foi no hospital, dias lentos e noites difíceis. O seu corpo estava se despedaçando e o meu e dos demais familiares perdidos na exaustão das noites mal dormidas e das refeições mal comidas. Não andava, não sentava, nem virava de lado, mal falava. A mim, quase nada dizia. No pior da sua agonia, mãezinha, quer que lhe cante pra dormir? “Sim, canta pra mim”. Mãezinha, era dia 9, eu esperava passar o dia seguinte com você, descansei o máximo que pude. Mas você já estava a muito sem descansar, entendi que não deu pra esperar. Eram 7:20H, o jantar tava na mesa, meu celular tocou, já fazia mais de um mês que se eu não estivesse do seu lado e o celular tocasse tudo em mim se estremecia. Foi a maior dor que eu já senti na vida e o maior alívio que poderia ter acontecido pra você. Eu sei, mãe, não deu pra esperar. Você me abraçou no dia 8, ultima vez que eu te vi, te beijei e disse que te amava pela última vez, enquanto você balançava a cabeça e me dizia, com os olhos, esse olhos já enevoados de morfina, que também me amava. Dia 10 de janeiro mãe, cheguei aos 23 enquanto você, aos 53, estava sendo sepultada.
Á sua memória, mãe.
A mulher que eu mais amei.
A pessoa que mais me amou.
Á sua memória, mãe.
A mulher que eu mais amei.
A pessoa que mais me amou.
Karla Lima 28|1|2018
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